A economia mundial sofreu modificações profundas a partir
da segunda metade do século XVIII, quando se iniciou, na Grã-Bretanha,
a revolução industrial. Estreitamente relacionada ao desenvolvimento
do sistema capitalista, a industrialização se estendeu por
todo o mundo e determinou o surgimento de novas formas de sociedade, de
estado e de pensamento.
Em sentido restrito, a expressão
"revolução industrial" aplica-se às transformações
econômicas e técnicas ocorridas na Grã-Bretanha, entre
o século XVIII e o XIX, com o surgimento da grande indústria
moderna. Em sentido amplo, refere-se à fase do desenvolvimento industrial
que corresponde à passagem da oficina artesanal ou da manufatura
para a fábrica. No plano econômico geral, esse processo se
fez acompanhar da transformação do capitalismo comercial,
que se iniciara no Renascimento, no capitalismo industrial. A revolução
industrial inglesa estendeu-se depois ao centro-oeste da Europa e aos Estados
Unidos e conferiu a essas regiões grande supremacia sobre as nações
européias e não-européias que ficaram à margem
dessa revolução, em virtude do mecanismo de acumulação
de capital inerente ao capitalismo moderno. Criou-se assim um descompasso
crescente entre países industrializados, economicamente desenvolvidos,
e países não industrializados, ou subdesenvolvidos, de economia
dependente.
A expressão revolução industrial não é
aceita pacificamente. Alguns economistas argumentam que a palavra "revolução"
pressupõe mudanças súbitas e bruscas, que não
ocorrem na economia. Os próprios contemporâneos do fenômeno,
no entanto, viram-no com esse caráter revolucionário. Arthur
Young, economista inglês do final do século XVIII, referiu-se
a ela como "uma revolução que está sendo feita". Reconhecida
pelos socialistas, a expressão foi difundida pelo economista Arnold
Toynbee, tio do historiador homônimo, em The Industrial Revolution
(1884; A revolução industrial).
Fatores determinantes. A fase aguda da
revolução industrial inglesa, entre 1760 e 1830, foi a continuação
natural de um longo processo, que se iniciou em data muito anterior e desdobrou-se
ao longo de muitos anos. Justamente na Inglaterra, onde o fenômeno
pareceu mais repentino e diferente aos contemporâneos, o processo
foi o mais demorado. Pode-se falar não em uma, mas em várias
revoluções industriais sucessivas: uma no século XIII,
quando da introdução das primeiras máquinas hidráulicas
na indústria têxtil; outra, entre 1540 e 1640, estimulada
pela alta dos preços e pela Reforma protestante. Essas primeiras
"revoluções" consistiram na exploração
industrial do carvão mineral e do minério de ferro, no fabrico
do aço, sabão, açúcar, cerveja, pólvora,
objetos de cobre, estanho, latão, papel. Ocorreu a introdução
de novas indústrias e a aplicação de novos métodos
a velhas indústrias, além da descoberta e aplicação
de novas técnicas.
Surgiu então a revolução industrial propriamente dita,
a dos séculos XVIII-XIX. Caracterizou-se por algumas novidades na
produção industrial, como a metalurgia do coque, a
utilização da máquina a vapor na mineração
e na laminação, a invenção de máquinas
nos setores de fiação e tecelagem, algumas já a vapor,
o emprego de novos métodos e materiais na cerâmica, na engenharia
civil e nos transportes, sobretudo canais e ferrovias. E na segunda metade
do século XIX e primeira do século XX, após a primeira
guerra mundial, surgiu um novo período denominado "nova revolução
industrial" ou "segunda revolução industrial".
Tornando como princípio básico da revolução
industrial a fabricação de mercadorias por máquinas
movidas a energia de fontes naturais, verifica-se que a revolução
industrial inglesa do século XVIII continuou muito além de
1830 e prosseguiu durante todo o século XX. Ela resultou das seguintes
premissas: revolução agrícola, que proporcionou mão-de-obra
abundante e barata; expansão do comércio marítimo
internacional e seu virtual domínio pela Inglaterra; abundância
de capitais e baixa taxa de juros devido à acumulação
propiciada pelo comércio e pela agricultura; mobilização
desses capitais em função do desenvolvimento do mercado financeiro
de Londres e dos bancos provinciais; aperfeiçoamentos técnicos
em máquinas já existentes, invenção de novos
equipamentos e melhoria da mão-de-obra especializada; e utilização
de uma nova forma de energia (vapor).
Assim, essas transformações
econômicas, sociais e tecnológicas, que isoladamente seriam
apenas acontecimentos, ao ocorrerem concomitantemente e se inter-relacionarem,
ganharam aspecto revolucionário. Devem-se acrescentar a tais aperfeiçoamentos
e invenções outros fatores, como a transformação
geral do setor dos transportes, com a abertura de vários canais,
a construção de ferrovias e de rodovias macadamizadas, graças
ao processo de John Loudon MacAdam, e a dinamização da navegação
a vapor; a substituição do mercantilismo pelo liberalismo
econômico, como prática econômica; a reflexão
ensejada pela obra de Adam Smith, David Ricardo, John Stuart Mill e outros;
o afluxo à Europa do ouro do Brasil e das colônias hispânicas,
assim como das riquezas da Índia, exploradas pela Companhia Inglesa
das Índias Orientais; e a dinamização do processo
de crescimento econômico, pelo investimento de boa parte dos lucros
do comércio e da indústria em bens de produção
e pelo reinvestimento dos lucros obtidos com tais bens na produção
de novos bens de capital.
Os ingleses foram nessa fase responsáveis
pela maior parte dos novos inventos, mas também utilizaram as contribuições
de outros povos: fabricação de papel com os holandeses, franceses
e italianos; tecelagem da seda com os italianos; obtenção
da folha-de-flandres com laminadores suíços etc.
França. Em 1789 a Grã-Bretanha já se encontrava nitidamente
à frente do seu mais próximo concorrente, a França.
Esta tentou acompanhar o ritmo inglês, recorrendo ao protecionismo
real e a técnicos britânicos. Pôde assim contar com
equipamentos como a jenny, máquina que fiava com grande rapidez;
a water frame, máquina movida a energia hidráulica; a fundição
à base de coque; e a primeira bomba a vapor, construída em
Chaillot, em 1779, segundo o modelo de James Watt.
Fatores diversos, no entanto, retardaram
a revolução industrial na França. A vantagem inglesa
já era sensível em 1786, quando do tratado comercial entre
os dois países, duramente criticado pelos industriais franceses,
pelos prejuízos que lhes trazia a concorrência inglesa. Diversos
fatores contribuíram para manter a França na retaguarda:
o retardamento da produção agrícola em virtude das
limitações impostas pela pequena propriedade, incapaz de
liberar grandes excedentes de mão-de-obra; a perda dos principais
mercados coloniais; o maior interesse dos capitalistas franceses pelos
altos cargos públicos, terras e títulos de nobreza; a estreiteza
e falta de organização do mercado de capitais; e a mentalidade
limitada e conservadora dos empresários.
A revolução francesa de
1789 e as guerras napoleônicas impulsionaram a produção
em massa e a conquista de novos mercados, como a América Latina
pelos industriais ingleses, enquanto a França teve de limitar-se
à Europa. Aumentou ainda mais sua defasagem tecnológica nos
setores da metalurgia e dos têxteis em relação à
Grã-Bretanha, apesar do esforço de Napoleão para fomentar
a industrialização. O processo incipiente de industrialização
não resistiu ao retorno da paz em 1815, e os empresários
que conseguiram sobreviver ampararam-se numa legislação protecionista
exagerada, estimuladora de inépcia e baixa produtividade. Com o
comércio em crise e os transportes desorganizados e precários,
somente após 1830 foi possível implantar uma política
eficiente de industrialização e construção
ferroviária.
Alemanha e Itália. A Alemanha começou
a sofrer algumas transformações com a União Aduaneira
(Zollverein), de 1834, que criou uma área de livre comércio
na maior parte do território germânico, sob a liderança
da Prússia. Mas a grande indústria só se multiplicou
e cresceu após 1850. A revolução industrial alemã
ocorreu de fato após a reunificação política
de 1870 e concluiu-se por volta de 1890. Muito mais rápida que a
inglesa, aproveitou a experiência desta e deu origem a uma indústria
bem mais moderna.
A Itália foi prejudicada pela carência de matérias-primas
e fontes energéticas. Sua industrialização só
se intensificou por volta de 1890-1900, em virtude da eletricidade. O mesmo
pode ser dito quanto aos países escandinavos. Portanto, na própria
Europa o processo de industrialização não se realizou
como um todo, e verificou-se o mesmo quadro: formação de
países (ou áreas) desenvolvidos e outros subdesenvolvidos.
Resto do mundo. Na América Latina, África e Ásia a
revolução industrial se mostrou por meio de suas conseqüências:
destruição da indústria artesanal doméstica,
não raro bastante adiantada, como na Índia e na China; instalação
de empresas estrangeiras, exploração dos recursos naturais
segundo os interesses do imperialismo e construção de obras
públicas e de vias de transporte segundo esses mesmos interesses,
quer para facilitar a exportação de matérias-primas
e produtos tropicais, quer para permitir maior consumo de artigos manufaturados
importados da Europa e dos Estados Unidos.
Com as duas guerras mundiais e o despertar
do nacionalismo, começou a haver uma tomada de consciência
do fenômeno chamado imperialismo e de seu componente, o subdesenvolvimento.
Passou então a ser meta prioritária do desenvolvimento econômico
e da emancipação do imperialismo, a industrialização,
isto é, a realização de revoluções industriais
locais. Essa nova orientação já encontrou em países
como Índia, China e Brasil algumas empresas industriais em funcionamento,
sobretudo no setor têxtil. Mas a infra-estrutura, isto é,
a indústria de base, estava ainda por ser instalada, pois não
era um setor que interessasse aos capitais imperialistas desenvolver. O
exemplo mais significativo de revolução industrial, em tempo
e profundidade, foi o da Rússia, após 1917. Mas, como ocorreu
na China Popular e nos países da Europa oriental, realizou-se segundo
um tipo de economia totalmente socializada, que fugiu aos velhos padrões
da economia capitalista.
Conseqüências. A revolução industrial, ao deslocar
uma estrutura industrial de tipo artesanal, mais ou menos desenvolvida,
conforme o país e a época, não atingiu todos os setores
de uma só vez. Mesmo num determinado setor, como o têxtil,
certas modificações se deram mais depressa que outras. De
modo geral a revolução afetou em primeiro lugar a fabricação
de bens de consumo: tecidos, roupas, utensílios de metal, produtos
alimentícios. Numa segunda etapa foram atingidas as indústrias
ligadas a bens de produção: máquinas, siderurgia,
química, ferramentas etc. A manufatura de ferro e aço em
grande escala foi a ponte necessária entre as duas fases.
Nas regiões de economia dependente apenas algumas indústrias
de bens de produção ligadas à exportação
(exploração vegetal ou mineral) atraíram o interesse
do capitalismo internacional. Quase sempre as necessidades de energia e
matérias-primas ditaram a localização das indústrias,
perto de jazidas carboníferas, vales fluviais, locais com potencial
hidrelétrico. Água e energia foram fatores essenciais
para a localização da indústria têxtil, assim
como o carvão para a siderurgia, a argila para a cerâmica
etc.
As conseqüências gerais da revolução industrial
podem ser assim resumidas: urbanização rápida e intensa;
progresso das regiões industriais em relação às
rurais; incremento do comércio interno e internacional; aperfeiçoamento
dos meios de transporte; crescimento demográfico; e redistribuição
da riqueza e do poder, primeiro entre os países da Europa, como
prova o declínio relativo da França, e depois do mundo.
Capitalismo; Imperialismo; Indústria;
Liberalismo